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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Em ano eleitoral uma crônica de Verissimo...

       Estou lendo um livro de Luis Fernando Verissimo, autor que eu adoro! E encontrei uma crônica muito interessante, ao menos para mim. Segue abaixo, na íntegra para que você também possa desfrutar desta leitura, fácil, gostosa e que deixa sua crítica ao nosso Congresso. Em ano eleitoral pareceu-me sugestivo..rsrs.

       "Pode acontecer

       Pode acontecer o seguinte. As sobre o envolvimento do governo passado em crimes e escândalos chegam ao ponto crítico. Civis e militares de graduação inimagináveis vêem-se na iminência não de ir para a cadeia, o que contraria os hábitos brasileiros, mas de serem expostos como corruptos, torturadores, etc. O que, sei lá, seria chato. Os protestos contra 'revanchismo' não adiantam. É preciso agir para deter a corrente de denúncias que ameaça destruir, na sua fúria persecutória, tudo o que o regime passado deixou de bom.   Como, por exemplo, a, a... hm. Bem, é preciso agir.
       O golpe é decidido num telefonema no meio da noite. Falam em código
       - Alô, Mão em Cumbuca? Boca na Botija.
       - Fala, Boca.
       - Tudo certo para amanhã?
       - Tudo.
       - Tem certeza?
       - Tenho. Houve resistência, mas o argumento de que até o Antônio Carlos está nas mãos dos comunistas foi decisivo. A maioria aderiu.
       - Quer dizer que...
       - Lá vamos nós outra vez.
       - Será que não há outro jeito?
       - Bem, se você quer ver nos jornais a história de como você roubava material de seu gabinete para vender...
       - Ssssh!
       - Tinha que vender os clipes de papel!?!
       - E você? E você?
       - O que tem eu?
       - E o cabaré no porão dos minis...
       - Ssshhh!
       - Bom, agora não adianta ficar lamentando. O importante é que ninguém descubra. Como está o plano?
       - Não pode falhar. Cercamos o Congresso. Os congressistas se renderão. Usando os congressistas como reféns, exigiremos a capitulação do governo e das forças locais a Sarney.
       - Uma vez no poder, censuraremos a imprensa. De novo.
       - Exato.
       - Boa sorte, Mão!
       - Certo, Boca.
       No dia seguinte.
       - Alô, Mão em Cumbuca?
       - Não tem ninguém aqui com esse codinome.
       - Já vi que não deu certo...
       - É.
       - O que houve?
       - Atacamos o Congresso. Fomos direto ao cerne da democracia. Cercamos o prédio. Entramos para prender os congressistas.
       - E?
       - E não encontramos ninguém!
       - O quê?!
       - Bom, para não dizer que não tinha ninguém, tinha uma taquígrafa. Pensamos em usá-la como refém mas acabamos desistindo.
       - Assim não dá!
       - É. É impossível golpear as instituições se elas não estão onde deveriam estar!
       - O que vamos fazer agora, Mão?
       - Eu se fosse você dava o fora do país, Boca.
       - E de onde você pensa que eu estou falando, Mão?"


       Verissimo é tudo de bom, não acha?

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